Roteiro de entrevista: o que perguntar para a conversa render
Deixar fluir não funciona. Ler pergunta do papel também não. O roteiro certo tem seis perguntas e muito espaço para sair delas.
Existem dois jeitos de estragar uma entrevista. O primeiro é chegar sem roteiro e “deixar fluir”. A conversa vai pra qualquer lado, o convidado repete o que já disse em outros lugares, e o episódio fica sem espinha. O segundo é chegar com vinte perguntas numeradas e ler uma atrás da outra. Vira interrogatório, e o convidado responde no automático.
O roteiro que funciona está entre os dois: poucas perguntas, bem pensadas, e liberdade total para sair delas.
Seis perguntas, não vinte
Um roteiro bom cabe em uma folha. Seis perguntas, no máximo oito. Cada uma abre um território de conversa, não pede uma resposta específica.
A diferença entre “quantos funcionários você tem?” e “como foi o dia em que você percebeu que a empresa tinha crescido demais pra você controlar tudo?” é a diferença entre um dado e uma história. A primeira dura cinco segundos. A segunda dura dez minutos e traz coisa que ninguém tinha ouvido.
A primeira pergunta define o episódio
Nunca comece com “conta um pouco da sua trajetória”. O convidado já respondeu isso cem vezes, e a audiência já ouviu cem vezes. Os primeiros três minutos decidem se quem chegou fica.
Comece com algo que só ele pode responder e que ninguém perguntou ainda. Uma decisão difícil, um erro que virou aprendizado, uma opinião contrária ao que o mercado pensa. Se o convidado precisa parar pra pensar antes de responder, a pergunta está certa.
Perguntas que nascem da pesquisa
A melhor pergunta não vem de um modelo. Vem de você ter estudado o convidado. Uma entrevista antiga, um post que ele fez, uma decisão que a empresa dele tomou e ninguém explicou.
Quando você chega com “você disse em 2023 que nunca faria X, e agora fez. O que mudou?”, o convidado percebe que está diante de alguém que fez a lição de casa. Isso muda o nível da conversa inteira.
O que fazer quando a resposta é boa
Aqui está o segredo que separa entrevistador de leitor de perguntas: quando a resposta é boa, a próxima pergunta não está no roteiro. Está na resposta.
Se o convidado disse algo interessante, puxe. “Como assim?” “E o que aconteceu depois?” “Você faria de novo?” As melhores partes de qualquer entrevista vêm de quem escutou e foi atrás, não de quem estava esperando terminar pra ler a próxima.
O roteiro é o mapa. A conversa é a viagem. Ninguém faz viagem boa olhando só pro mapa.
Silêncio é ferramenta
Quando o convidado termina de responder, espere. Dois segundos, três. A maioria das pessoas não aguenta o silêncio e completa. E o que vem depois do silêncio costuma ser a parte mais honesta.
Entrevistador ansioso emenda pergunta em cima de pergunta e nunca ouve o que o convidado ia dizer se tivesse espaço.
Fechamento com intenção
A última pergunta não é “quer deixar uma mensagem final?”. É uma pergunta pensada que fecha o arco da conversa. Pode voltar ao começo, pode pedir uma projeção, pode ser uma provocação.
O final é o que a audiência leva. Se ele for fraco, o episódio inteiro parece mais fraco do que foi.
O ambiente ajuda o roteiro
Tem um detalhe que pouca gente conecta: roteiro bom depende de o entrevistador estar tranquilo. Se você está preocupado com o microfone, com a luz, com o tempo, não consegue escutar. E se não escuta, o roteiro vira leitura.
É por isso que gravar em estúdio muda a qualidade da conversa, não só a qualidade da imagem. Você senta, a produção cuida do resto, e toda a sua atenção fica na pessoa à sua frente.
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